A Cartomante, Machado de Assis 

Fonte: 

ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II. 

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A Cartomante 

HAMLET observa a Horcio que h mais cousas no cu e na terra do que 
sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicao que dava a bela Rita ao 
moo Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, 
por ter ido na vspera consultar uma cartomante; a diferena  que o fazia 
por outras palavras. 

 Ria, ria. Os homens so assim; no acreditam em nada. Pois saiba que 
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe 
dissesse o que era. Apenas comeou a botar as cartas, disse-me: "A senhora 
gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e ento ela continuou a botar as 
cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que voc 
me esquecesse, mas que no era verdade... 
 Errou! interrompeu Camilo, rindo. 
 No diga isso, Camilo. Se voc soubesse como eu tenho andado, por sua 
causa. Voc sabe; j lhe disse. No ria de mim, no ria... 
Camilo pegou-lhe nas mos, e olhou para ela srio e fixo. Jurou que lhe 
queria muito, que os seus sustos pareciam de criana; em todo o caso, 
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, 
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela 
podia sab-lo, e depois... 


 Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa. 
 Onde  a casa? 
 Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; no passava ningum nessa 
ocasio. Descansa; eu no sou maluca. 
Camilo riu outra vez: 

 Tu crs deveras nessas cousas? perguntou-lhe. 
Foi ento que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que 
havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele no 
acreditava, pacincia; mas o certo  que a cartomante adivinhara tudo. Que 
mais? A prova  que ela agora estava tranqila e satisfeita. 

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. No queria arrancar-lhe as 
iluses. Tambm ele, em criana, e ainda depois, foi supersticioso, teve um 
arsenal inteiro de crendices, que a me lhe incutiu e que aos vinte anos 
desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetao parasita, e 
ficou s o tronco da religio, ele, como tivesse recebido da me ambos os 
ensinos, envolveu-os na mesma dvida, e logo depois em uma s negao 
total. Camilo no acreditava em nada. Por qu? No poderia diz-lo, no 
possua um s argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque 
negar  ainda afirmar, e ele no formulava a incredulidade; diante do 
mistrio, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. 

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser 
amada; Camilo, no s o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, 
correr s cartomantes, e, por mais que a repreendesse, no podia deixar de 
sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, 
onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das 
Mangueiras, na direo de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da 
Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. 

Vilela, Camilo e Rita, trs nomes, uma aventura e nenhuma explicao 
das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infncia. Vilela 
seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a 
vontade do pai, que queria v-lo mdico; mas o pai morreu, e Camilo 
preferiu no ser nada, at que a me lhe arranjou um emprego pblico. No 
princpio de 1869, voltou Vilela da provncia, onde casara com uma dama 
formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. 
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo receb-lo. 

  o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mo. No imagina como 
meu marido  seu amigo, falava sempre do senhor. 
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. 
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela no 
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, 
olhos clidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que 
ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. 
Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, 
enquanto Camilo era um ingnuo na vida moral e prtica. Faltava-lhe tanto a 
ao do tempo, como os culos de cristal, que a natureza pe no bero de 
alguns para adiantar os anos. Nem experincia, nem intuio. 

Uniram-se os trs. Convivncia trouxe intimidade. Pouco depois morreu a 


me de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes 
amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrgios e do inventrio; Rita 
tratou especialmente do corao, e ningum o faria melhor. 

Como da chegaram ao amor, no o soube ele nunca. A verdade  que 
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase 
uma irm, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o 
que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorpor-lo em si prprio. Liam 
os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as 
damas e o xadrez e jogavam s noites;  ela mal,  ele, para lhe ser 
agradvel, pouco menos mal. At a as cousas. Agora a ao da pessoa, os 
olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os 
consultavam antes de o fazer ao marido, as mos frias, as atitudes inslitas. 
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e 
de Rita apenas um carto com um vulgar cumprimento a lpis, e foi ento 
que ele pde ler no prprio corao, no conseguia arrancar os olhos do 
bilhetinho. Palavras vulgares; mas h vulgaridades sublimes, ou, pelo 
menos, deleitosas. A velha calea de praa, em que pela primeira vez 
passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. 
Assim  o homem, assim so as cousas que o cercam. 

Camilo quis sinceramente fugir, mas j no pde. Rita, como uma 
serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos 
num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e 
subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a 
batalha foi curta e a vitria delirante. Adeus, escrpulos! No tardou que o 
sapato se acomodasse ao p, e a foram ambos, estrada fora, braos dados, 
pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada 
mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A 
confiana e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas. 

Um dia, porm, recebeu Camilo uma carta annima, que lhe chamava 
imoral e prfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve 
medo, e, para desviar as suspeitas, comeou a rarear as visitas  casa de 
Vilela. Este notou-lhe as ausncias. Camilo respondeu que o motivo era uma 
paixo frvola de rapaz. Candura gerou astcia. As ausncias prolongaramse, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse tambm nisso 
um pouco de amor-prprio, uma inteno de diminuir os obsquios do 
marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu  cartomante 
para consult-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. 
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiana, e que o rapaz repreendeua por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu 
mais duas ou trs cartas annimas, to apaixonadas, que no podiam ser 
advertncia da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinio 
de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: 

 a virtude  preguiosa e avara, no gasta tempo nem papel; s o interesse 
 ativo e prdigo. 
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o annimo fosse 
ter com Vilela, e a catstrofe viria ento sem remdio. Rita concordou que 


era possvel. 

 Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das 
cartas que l aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a... 
Nenhuma apareceu; mas da a algum tempo Vilela comeou a mostrar-se 
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em diz-lo ao 
outro, e sobre isso deliberaram. A opinio dela  que Camilo devia tornar  
casa deles, tatear o marido, e pode ser at que lhe ouvisse a confidncia de 
algum negcio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses 
era confirmar a suspeita ou denncia. Mais valia acautelarem-se, 
sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se 
corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lgrimas. 

No dia seguinte, estando na repartio, recebeu Camilo este bilhete de 
Vilela: "Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de 
meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural 
cham-lo ao escritrio; por que em casa? Tudo indicava matria especial, e a 
letra, fosse realidade ou iluso, afigurou-se-lhe trmula. Ele combinou todas 
essas cousas com a notcia da vspera. 

 Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora,  repetia ele com 
os olhos no papel. 
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e 
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo 
de que ele acudiria, e esperando-o para mat-lo. Camilo estremeceu, tinha 
medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idia de 
recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar 
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. No achou nada, nem 
ningum. Voltou  rua, e a idia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez 
mais verossmil; era natural uma denncia annima, at da prpria pessoa 
que o ameaara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma 
suspenso das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto 
ftil, viria confirmar o resto. 

Camilo ia andando inquieto e nervoso. No relia o bilhete, mas as 
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou ento,  o que era 
ainda pior,  eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a prpria voz de Vilela. 
"Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela 
voz do outro, tinham um tom de mistrio e ameaa. Vem, j, j, para qu? 
Era perto de uma hora da tarde. A comoo crescia de minuto a minuto. 
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a cr-lo e v-lo. 
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando 
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precauo era til. Logo depois 
rejeitava a idia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direo 
do Largo da Carioca, para entrar num tlburi. Chegou, entrou e mandou 
seguir a trote largo. 

"Quanto antes, melhor, pensou ele; no posso estar assim..." 

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoo. O tempo 
voava, e ele no tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da 
Guarda Velha, o tlburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma 
carroa, que cara. Camilo, em si mesmo, estimou o obstculo, e esperou. No 


fim de cinco minutos, reparou que ao lado,  esquerda, ao p do tlburi, 
ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele 
desejou tanto crer na lio das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando 
todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. 
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino. 

Camilo reclinou-se no tlburi, para no ver nada. A agitao dele era 
grande, extraordinria, e do fundo das camadas morais emergiam alguns 
fantasmas de outro tempo, as velhas crenas, as supersties antigas. O 
cocheiro props-lhe voltar  primeira travessa, e ir por outro caminho: ele 
respondeu que no, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois 
fez um gesto incrdulo: era a idia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao 
longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e 
tornou a esvair-se no crebro; mas da a ponco moveu outra vez as asas, 
mais perto, fazendo uns giros concntricos... Na rua, gritavam os homens, 
safando a carroa: 

 Anda! agora! empurra! v! v! 
Da a pouco estaria removido o obstculo. Camilo fechava os olhos, 
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as 
palavras da carta: "Vem, j, j..." E ele via as contores do drama e tremia. 
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se 
diante de um longo vu opaco... pensou rapidamente no inexplicvel de 
tantas cousas. A voz da me repetia-lhe uma poro de casos 
extraordinrios: e a mesma frase do prncipe de Dinamarca reboava-lhe 
dentro: "H mais cousas no cu e na terra do que sonha a filosofia... " Que 
perdia ele, se... ? 

Deu por si na calada, ao p da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e 
rpido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus 
comidos dos ps, o corrimo pegajoso; mas ele no, viu nem sentiu nada. 
Trepou e bateu. No aparecendo ningum, teve idia de descer; mas era 
tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele 
tornou a bater uma, duas, trs pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. 
Camilo disse que ia consult-la, ela f-lo entrar. Dali subiram ao sto, por 
uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma 
salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. 
Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do 
que destrua o prestgio. 

A cartomante f-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com 
as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no 
rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e 
enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, no de 
rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, 
morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou trs cartas 
sobre a mesa, e disse-lhe: 

 Vejamos primeiro o que  que o traz aqui. O senhor tem um grande 
susto... 
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo. 

 E quer saber, continuou ela, se lhe acontecer alguma cousa ou no... 

 A mim e a ela, explicou vivamente ele. 
A cartomante no sorriu: disse-lhe s que esperasse. Rpido pegou outra 
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas 
descuradas; baralhou-as bem, transps os maos, uma, duas. trs vezes; 
depois comeou a estend-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso. 

 As cartas dizem-me... 
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Ento ela declaroulhe que no tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; 
ele, o terceiro, ignorava tudo. No obstante, era indispensvel muita cautela: 
ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de 
Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as 
cartas e fechou-as na gaveta. 

 A senhora restituiu-me a paz ao esprito, disse ele estendedo a mo por 
cima da mesa e apertando a da cartomante. 
Esta levantou-se, rindo. 

 V, disse ela; v, ragazzo innamorato... 
E de p, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, 
como se fosse a mo da prpria sibila, e levantou-se tambm. A cartomante 
foi  cmoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho 
destas, comeou a despenc-las e com-las, mostrando duas fileiras de 
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ao comum, a mulher tinha 
um ar particular. Camilo, ansioso por sair, no sabia como pagasse; ignorava 

o preo. 
 Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer 
mandar buscar? 
 Pergunte ao seu corao, respondeu ela. 
Camilo tirou uma nota de dez mil-ris, e deu-lha. Os olhos da cartomante 
fuzilaram. O preo usual era dois mil-ris. 

 Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do 
senhor. V, v, tranqilo. Olhe a escada,  escura; ponha o chapu... 
A cartomante tinha j guardado a nota na algibeira, e descia com ele, 
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a 
escada que levava  rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava 
acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tlburi esperando; a rua 
estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. 

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o 
cu estava lmpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que 
chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram 
ntimos e familiares. Onde  que ele lhe descobrira a ameaa? Advertiu 
tambm que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser 
algum negcio grave e gravssimo. 

 Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro. 
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; 
parece que formou tambm o plano de aproveitar o incidente para tornar  
antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as 
palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o 
estado dele, a existncia de um terceiro; por que no adivinharia o resto? O 


presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contnuas, que as 
velhas crenas do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistrio empolgava-o 
com as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; 
mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortao:  V, 
v, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e 
graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, 
uma f nova e vivaz. 

A verdade  que o corao ia alegre e impaciente, pensando nas horas 
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glria, Camilo 
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, at onde a gua e o cu do 
um abrao infinito, e teve assim uma sensao do futuro, longo, longo, 
interminvel. 

Da a ponco chegou  casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro 
do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, 
e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. 

 Desculpa, no pude vir mais cedo; que h? 
Vilela no lhe respondeu; tinha as feies decompostas; fez-lhe sinal, e 
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo no pde sufocar um grito 
de terror:  ao fundo sobre o canap, estava Rita morta e ensangentada. 
Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revlver, estirou-o morto no 
cho. 

FIM 


